Uns bonecos do cacete! ou A poesia e a graça de Lorca num teatro que explicita a arte de manipular
Em se tratando de um espetáculo que é fruto de um processo artístico-pedagógico, volto minha atenção primeiramente para o fim da apresentação de “Os Títeres de Porrete: Tragicomédia de Dom Cristóvão e Sinhá Rosinha”, que o Grupo Titiritando, formado por alunos do curso de Licenciatura em Teatro na UFPE, apresentou no penúltimo dia do Festival Palco Giratório (31.05.2024) para um Teatro Capiba quase lotado. É que no término da sessão, todos os 18 atores-manipuladores compartilharam com o público seus nomes, mostraram o(s) boneco(s) que acabaram de brincar – alguns retomando suas vozes, para surpresa de todos –, pontuando ainda outras funções desempenhadas na montagem: sonoplastia, figurinos, sombras, cenários, produção ou mídias sociais. Um ótimo momento para que espectadores – grandes ou pequenos – saibam que tudo ali é fruto do coletivo e deu muito trabalho.
Afinal, todo mundo esteve literalmente com a mão na massa, construindo cada títere seu graças a uma oficina com a bonequeira Maria Oliveira, que os ensinou a lidar com o papel machê nas etapas de modelagem, pintura e caracterização. Mas é a professora Izabel Concessa, docente da universidade, quem está à frente da direção cênica, observando postura (haja força nos braços e mãos para cima), voz, concepção dos tipos, a entrega a duas técnicas da animação, bonecos e sombras, e todas as escolhas estilísticas, sempre em conjunto com seus alunos-artistas. A peça estreou em 2022 na disciplina “Teatro de Formas Animadas”, já foi vista nas cidades do Recife, Igarassu, Limoeiro e Surubim (essa foi a sétima exibição do coletivo) e o resultado é, de fato, uma graça.
A obra nos transporta para a Andaluzia, região da Espanha, terra do autor da divertida trama, o poeta e dramaturgo Federico García Lorca. O mesmo é autorrepresentado por um narrador de nome Mosquito, misto de duende e inseto, no entanto parecendo mais um Louva-Deus com nariz comprido. Ele é dúbio, assim como os lances de ironia que virão salpicados nos seis quadros em sequência, para além do uso da metateatralidade, dos derrames de poesia apaixonante e das críticas históricas e sociais afiadas – trata-se de uma peça que investe contra a moral patriarcal e reclama empoderamento feminino. Tudo regado a muitas promessas de violência ou sua concretização, afinal, o porrete do título (bastão que serve para surrar alguém) é quase “personagem”, sempre surgindo como por encanto.

Sem receio de inverter o politicamente correto, há até quem defenda que espetáculo de boneco popular, como o teatro de títeres lorquiano, tem que ter mangação e cacete, porrada mesmo. Pois assim é a estética da tradição guinholesca andaluza (pena que a empanada não seja de madeira, e sim de tecido, para ouvirmos com mais força as pancadas do objeto, como no mamulengo nordestino). E nessa tragicomédia farsesca também estão presentes o lirismo, a poesia e a pura galhofa, ainda que muito do que seja dito permaneça nas entrelinhas, como a xenofobia declarada e o direito à liberdade extraconjugal. É um conflito familiar e amoroso cheio de quiproquós, que se estabelece aparentemente quase sem resolução, até que a surpresa da vida diante da morte faz o desfecho precipitar-se para o final feliz tão esperado.

O enredo mostra as desventuras da bordadeira Sinhá Rosinha, que já foi abandonada por um namorado e agora tem vontade de se casar com o romântico Cocoliche, mesmo sendo ele mais pobre que ela. O problema é o pai da moça, em troca de cem moedas para saldar dívidas, prometeu sua mão ao nobre Dom Cristóvão, um homem bruto, violento e arrogante que tem prazer em baixar o porrete a todo instante. Antes de concretizar aquele recíproco amor, muitos obstáculos atrapalham os dois apaixonados, inclusive o retorno do ex-affair da jovem, Currito, que a largou para viajar pelo mundo. É uma dramaturgia envolvente, que fisga o público de cara, muito também pela presença de bonecos tão graciosos, com destaque à mais lúdica das personagens, a protagonista.
O curioso é que Lorca não se omite de fazer rir com malícia, basta citar as referências aos prazeres sexuais em meio ao machismo descabido e até uma possível libidinagem da moçoila em seu quarto, já casada, com três homens que a desejam. O público responde a tudo com muita entrega e sem censuras, num desfilar de interjeições às surpresas e reviravoltas, muxoxos às tiradas do vilão, risadas às trapalhadas dos títeres e suspiros de torcida ao romance dos pombinhos. Para melhorar, a diretora Izabel Concessa acertou em cheio ao optar por desvelar a relação atores e bonecos como complementos indissociáveis, com entradas de alguns tipos pela plateia ou por baixo da tenda, revelando o teatro que mistura humanos e figuras inanimadas, ora um se transformando no noutro e vice-versa, numa simbiose e alquimia que encantam.

Alguns instantes em especial são de encher os olhos: o beijão que acontece entre Cocoliche como gente, o ator Lucas Carvalho, e a boneca Sinhá Rosinha, manipulada por Gil Miranda (para delírio do público!); as cenas em que vários bonecos surgem ao mesmo tempo (e como há bonecos no palco!); e o belo trecho sobre a morte, que deixa clara a condição de seres de madeira na mão de manipuladores humanos (ou seria o contrário?) como plena unidade (a teatralidade, então, se expande magistralmente). Tudo uma delícia de se ver!

Em meio a tantos elogios, como eu já tinha assistido “Os Títeres de Porrete: Tragicomédia de Dom Cristóvão e Sinhá Rosinha” antes, percebo que todo o elenco está bem mais desenvolto, tanto nas vozes quanto na manipulação, mas, a título de contribuição, só tenho a destacar que, talvez pelo espaço diminuto no palco do Teatro Capiba, as passagens de uma cena para a outra mereciam mais dinamicidade. Ah, e a lua que surge ao final – como destacou uma criança da plateia – está mais para cheia do que nova. São detalhes que não tiram o brilho do espetáculo, que merece ser visto por muito mais pessoas. Vida longa ao Grupo Titiritando!
*Vale o registro do outros nomes da equipe: Alice Bôa Hora, Álvaro de Farias, Diniz Luz, Gio Miranda, Guilherme Mergulhão, Karol Spinelli, Leo Bouças, Luan Lucas Leite, Lucas Carvalho, Lucas Vinícius, Marcílio Santos, Maria Guerra, Mariana Azevedo, Rafael de Souza Torres ZN, Ruan Henrique, Ruana Toledo e Thayná Nascimento no elenco; com operação de som de Blandon Aravanis e iluminação e produção executiva de Ariane Clara Fernandes (tendo ainda assistência de produção da dupla Ruan Henrique e Luan Lucas Leite).
Imagens
gentilmente cedidas pelo fotógrafo João Fernando Bonfim.
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02/06/2024 @ 08:38
You’respirited
03/06/2024 @ 21:26
“Gratitude is the armor that shields us from negativity. Thank you for reinforcing our defenses with your motivational posts!”
02/10/2024 @ 11:06
Um bom ponto de partida para estudar o tema.
06/10/2024 @ 12:09
A leitura fluiu muito bem, parabéns!