Inventividades de “O Equilibrista” fascinam e mostram como é duro um menino-artista virar homem
A sensação de observar uma pedra preciosa por vários ângulos, daquelas que mudam de cor e continuam únicas à sua maneira. Assim posso traduzir a minha experiência com o espetáculo “O Equilibrista”, que a Cia. YinsPiração Poéticas Contemporâneas, de Brasília, apresentou no Teatro Apolo, no Recife, na noite de quarta-feira 29 de maio de 2024, abrindo a temporada de circulação nacional da equipe pelo Palco Giratório. Com dramaturgia e direção de Luciana Martuchelli e atuação de Filipe Lima, em diálogo com as filigranas sonoras da guitarra de Guilherme Cezário, a peça, repleta de recursos de linguagem, diversifica as possibilidades de escrita da cena, liquidificando estímulos e materiais bem distintos.
Personagens que sinalizam lirismos em fluidez, fragmentos de textos que expandem tempo e espaço, iluminação com tonalidades distintas em mudanças totais de cor, trechos de canções oriundas de nacionalidades variadas, organização cenográfica quase como instalação minimalista, projeção audiovisual em liberdade documental e objetos manipulados para uma ressignificação constante, ufa, tudo ali é polissêmico. Tanto que é bem possível que muita gente, na intenção de apenas entender a obra racionalmente, tenha se distanciado dela por não decodificar por completo as inúmeras operações em conjunto. São mesmo outros parâmetros de percepção e recepção para que se usufrua melhor da poética de “O Equilibrista”.
O título da montagem já nos coloca diante da questão de se situar numa inconstância, assim como o próprio artista em cena, Filipe Lima, que além de enfrentar desde pequeno a acusação de possuir voz de menina, em certo momento da vida descobriu que queria ser artista, profissional a viver na corda bamba, para desespero dos seus familiares. A obra, então, tem como fio principal dos seus depoimentos (reais ou ficcionais?) uma possível masculinidade renovada, mas também dá voz à opção de se abraçar o mundo artístico, do passar ou parar das horas no enfrentamento do medo de crescer e à grande aventura que é viver com escolhas próprias.
De início, logo após o contato com cartas de tarô no telão, uma voz ao longe prenuncia a chegada de um Barong, personagem da mitologia e do teatro balinês. É esta criatura quem começa a narrar a força do fogo por vários teatros pelo mundo, devido a casas de espetáculos que se reduziram às cinzas. Numa delas, os artistas arriscaram a própria vida para saírem com o figurino a salvo. Isso porque sabiam da força que um espetáculo tem para fazer arder consciências e memórias. Como aquelas que começam a desfilar no fluxo contínuo de pensamento do artista-menino-homem em cena, que se despe da personagem balinesa para adentrar num palco-ilha onde as referências ao tempo serão constantes.
Primando por uma atuação performativa cujo corpo e voz são construídos milimetricamente como recursos técnicos potentes, Filipe Lima quase sempre brinca com a disjunção entre gesto e palavra, inserindo objetos como surpresa na narrativa e propondo-lhes novos usos (basta lembramos do casaco, da gaiola, dos relógios, dos navios, das ampulhetas e dos livros com dobraduras tridimensionais). Ele também embaralha fábulas e poesias, com visitas à morada de Deus em meio aos anjos; nos leva a um jardim do imperador chinês à beira da morte que teimou em aprisionar um beija-flor (sua mão e uma buzina de bicicleta já bastam para vermos o pequenino pássaro), como também à Terra do Nunca onde residem os Meninos Pelados e o terrível Capitão Gancho, ainda a morrer de medo do crocodilo Tic-Tac, o tempo que assusta os adultos.
Sua partitura de movimentos é intensa e obsessiva, mas nada de estado de energia mais elevado, é tudo comedido, lírico, singelo, mesmo que haja um excesso de marcas, falas, situações, metáforas e até um falso final. Tudo isso certamente borra compreensões lógicas, mas também abre possibilidades de significação as mais variadas. Afinal, essa descontinuidade é proposital e consegue nos capturar a um fluxo de minúcias de sensações em desdobramentos poéticos. E como num rito de passagem do menino-criança que não pensa no tempo àquele menino-rapaz que encara as expectativas do pai, ao menino-adulto que descobre, pelo viés feminino aceito por ele, o que é ser homem de verdade, se revela mais uma joia fascinante dos artistas do teatro brasiliense.
Crédito das fotos: Guilherme Lostt.
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30/05/2024 @ 14:32
Sua critica traduz com sensibilidade a a delicada e profunda experiencia que foi assistir “O equilibrista”. Belo e multifacstado espetáculo que, mesmo após acesas aa luzes da plateia, segue reverberando em sons e imagens poéticas de infâncias nada simples nem fáceis.
30/05/2024 @ 17:27
Sua critica traduz com sensibilidade a delicada e profunda experiência que foi assistir “O equilibrista”. Belo e multifacstado espetáculo que, mesmo após acesas aa luzes da plateia, segue reverberando em sons e imagens poéticas de infâncias nada simples nem fáceis.
02/06/2024 @ 10:07
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03/06/2024 @ 09:08
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03/06/2024 @ 21:55
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02/10/2024 @ 10:23
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02/10/2024 @ 11:17
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06/10/2024 @ 11:52
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06/10/2024 @ 11:59
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